Monday, August 22, 2011

Marx ataca



Marx ataca
Lançamento dos Grundrisse reatualiza ideias do filósofo, como fetichismo e alienação
Publicado em 22 de agosto de 2011
TAGS: grundrisse, Marx, Vladimir Safatle


Vladimir Safatle

Jacques Lacan costumava dizer que nunca se ultrapassava um grande pensador, pois a verdade era sempre nova. Talvez seja o caso de aplicar tal raciocínio a Karl Marx.

Poucos foram os autores tão acusados de nada mais ter a dizer sobre nosso tempo do que esse filósofo que um dia afirmou que a função maior do pensamento não era interpretar a realidade, mas transformá-la. Vinculou-se de bom grado o destino de suas ideias ao mesmo lugar a que foram enviados os regimes comunistas do século 20, ou seja, à lata de lixo da história.

No entanto, nestes últimos 20 anos pós-queda do Muro de Berlim não foram poucas as vezes em que o espectro de Marx pareceu retornar. Um retorno que ganhou nos últimos dois anos força inusitada.

Qualquer um que frequente livrarias pelo mundo percebe como livros sobre Marx ou de sua própria autoria voltaram às prateleiras. Embalado principalmente pelo desencanto provocado pela crise econômica de 2008, o retorno de Marx faz parte de um movimento lento que visa recolocar esquemas alternativos de reflexão sobre o desenvolvimento das sociedades modernas e seus impasses.

O caso brasileiro não poderia ser diferente, já que, entre nós, o pensamento marxista nunca desapareceu completamente – resultado da existência de uma robusta tradição marxista local. Apenas neste ano, o Brasil recebeu as primeiras traduções diretas do alemão de textos maiores como O 18 de Brumário, Guerra Civil na França e os Grundrisse (Boitempo).

Desses lançamentos, certamente o último é o empreendimento mais ousado. Trata-se de uma espécie de primeira versão dos estudos que posteriormente dariam forma à obra maior de Marx: O Capital. Nos Grundrisse, podemos ver seu pensamento em movimento, apreendê-lo em seu processo de trabalho com suas articulações decisivas entre filosofia, lógica hegeliana e economia política.

No entanto, seria interessante perguntar qual é este Marx que atualmente retorna. O século 20 conheceu o Marx da luta de classes, da revolução proletária iminente, da teleologia histórica. O Marx fundamental na organização do imaginário que guiou os grandes partidos esquerdistas que animaram as lutas políticas do século com suas demandas de ruptura e revolução.


Pré-modernidade

Já nos anos 1930, os teóricos da chamada Escola de Frankfurt não tinham muitas esperanças nesse Marx, embora ele ainda mobilizasse grandes contingentes à espera da redenção histórica. Da mesma forma, o pensamento que se desdobrou a partir de maio de 1968 tinha como seu objeto maior de crítica à crença nas “metanarrativas” dessa história revolucionária.

Mas é fato que duas outras temáticas parecem agora retornar com força e se colocar na linha de frente do retorno de Marx. Elas alimentam o Marx teórico da alienação nas sociedades modernas e do fetichismo próprio ao capitalismo.

Certamente, a teoria marxista do fetichismo é um dos modelos mais profícuos de compreensão do núcleo regressivo das sociedades modernas, ou seja, da maneira com que nossas sociedades ditas desencantadas têm, em seu núcleo central, um encantamento estruturalmente parecido ao encantamento fetichista dos povos pré-modernos.

Ela foi usada como regime de crítica aos bloqueios sociais de reconhecimento nas esferas fundamentais de nossa forma de vida, como as esferas do trabalho, do desejo (vide o trabalho dos freudo-marxistas) e da linguagem (vide a teoria adorniana da cultura). Tal teoria, contrariamente ao que se acreditava nos anos 1960, é um setor fundamental da crítica da alienação que assombra nossas sociedades.

Wednesday, June 15, 2011

O pioneirismo de PAGU

A ESCANDALOSA NORMALISTA


Pagú nasce Patrícia Rehder Galvão no dia 09 de junho de 1910 em São João da Boa Vista, São Paulo, terceira filha de Adélia Rehder Galvão e Thiers Galvão de França. Três anos depois a família se muda para São Paulo, cidade que passava, desde o fim do século XIX, por profundas transformações. Há um surto de expansão econômica motivado sobretudo pelas lavouras cafeeiras do interior do estado e pela proliferação de indústrias. É nesta cidade que crescia vertiginosa e desordenadamente que Patrícia passa a freqüentar a escola. De saia azul, blusa branca, cabelos soltos e batom escuro, ela chama a atenção dos rapazes da Faculdade de Direito ao passar diariamente pelo largo de São Francisco.



“Era uma menina forte e bonita, que andava sempre muito extravagantemente maquiada, com uma maquiagem amarelo-escura, meio cor de queijo palmira, e pintava os lábios de quase roxo, tinha um cabelo comprido, assim pelos ombros, e andava com o cabelo sempre desgrenhado e com grandes argolas na orelha. Passava sempre lá pela faculdade, de uniforme de normalista. E os estudantes buliam muito com ela, diziam muita gracinha pra ela (...) faziam muita piada e ela respondia à altura, porque não tinha papas na língua para responder”, descreve um estudante de direito da época.



Alfredo Mesquita, em texto de 1971, falou sobre a amiga: “Pagú fora aluna célebre da ‘Escola Normal da Praça’ (...) Corriam em São Paulo, cidade provinciana, histórias malucas a seu respeito: fugas, pulando janelas e muros da escola, cabelos cortados e eriçados, blusas transparentes de decotes arrojados, cigarros fumados em plena rua. Escândalos, para a época”.



A “escandalosa” Pagú presencia também, ainda que muito jovem – tinha à época 12 anos – a Semana de Arte Moderna de 1922 e o início do movimento modernista, do qual mais tarde iria participar. Em 1925, com quinze anos, passa colaborar no Brás Jornal, assinando Patsy.



Além da Escola Normal, Zazá, como era conhecida pelos familiares, freqüenta com a irmã Sidéria o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde lecionava Mário de Andrade. Numa crônica escrita para o Diário de São Paulo muitos anos depois, a própria Patrícia rememoraria o poeta àquela época:



“Mário de Andrade tinha um riso largo de criança, na minha infância, eu roubando frutas no tabuleiro da casa que tinha perto do Conservatório, na avenida São João, e nós meninas sem saber que aquele professor comprido e feio, de riso de criança grande, era um poeta, comia amendoim abrindo o clã do jabuti, e ninguém de nós no piano, na sala, na rua, na porta, pressentindo “depois de amanhã o porvir, sim, o porvir...” Nenhuma de nós sabia que o poeta era o poeta, que o professor fosse outra coisa” (“Cor local: Depois de amanhã Mário de Andrade”, Diário de São Paulo, 23/2/47).





O ENVOLVIMENTO COM O GRUPO ANTROPOFÁGICO









Em 1928 Patrícia completa o Curso Normal da Escola da Capital e é neste mesmo ano que entra em contato com o grupo da Antropofagia. Também neste momento ganha o apelido que a acompanharia pela vida toda, ainda que mais tarde já não gostasse de ser chamada assim: Pagú. Foi Raul Bopp quem lhe deu o apelido. Em depoimento a Augusto de Campos, Bopp afirma que Patrícia lhe mostrara alguns poemas e ele sugeriu que ela adotasse esse nome de guerra literário. O poeta pensara que ela se chamava Patrícia Goulart, e compôs o nome juntando as supostas iniciais. Em outubro de 1928, Bopp publica na revista Para Todos..., do Rio, o poema “Coco de Pagú”:



“Pagú tem uns olhos moles

uns olhos de fazer doer.

Bate-coco quando passa.

Coração pega a bater.



Eh Pagú eh!

Dói porque é bom de fazer doer (...)”



É o mesmo Bopp quem a introduz no salão da Alameda Barão de Piracicaba, nas reuniões oferecidas por Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, o casal “mais admirado e requisitado da sociedade paulistana”, nas palavras de Maria Eugênia Boaventura, biógrafa de Oswald. Ele e Tarsila logo simpatizam com a jovem ousada e excêntrica, que a partir de então passa a freqüentar as reuniões do grupo. Segundo depoimento do arquiteto Flávio de Carvalho, dado em 1964, Pagú “era uma colegial que Tarsila e Oswald resolveram transformar em boneca. Vestiam-na, calçavam-na, penteavam-na, até que se tornasse uma santa flutuando sobre as nuvens”.



O movimento antropofágico, lançado em 1928 com o “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade, era uma radicalização do modernismo de 22. O texto de Oswald foi publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, criada para difundir o movimento. Segundo Maria Eugênia Boaventura, o movimento antropófago representa o extremismo do modernismo, sua forma mais revolucionária. “Ele reproduz e intensifica todos os tipos anteriores de ruptura. Representa uma síntese metafórica da trajetória dos diferentes grupos da experiência moderna no Brasil”.



Após dez números a revista passa por uma reformulação e inicia sua segunda fase, ainda mais radical que a primeira, fazendo com que haja uma cisão no grupo e vários integrantes encerrem sua colaboração, como Mário de Andrade e Alcântara Machado. “A Revista de Antropofagia, em ambas as fases, de vários modos, ridiculariza a ação e o pensamento dos companheiros modernistas que não aderem, afastam-se do grupo, ou ainda, de escritores que se opõem à programática antropofágica.”, esclarece Boaventura.



É nesta “segunda dentição” - como os autores se referiam à nova fase -, iniciada em março de 1929, que Pagú inicia sua colaboração, basicamente com desenhos. Em junho do mesmo ano ela se apresenta numa festa beneficente no Teatro Municipal em que, vestida por Tarsila, declama poemas modernistas, incluindo o “Coco” de Bopp e um poema de sua autoria, presente no “Álbum de Pagú”, de 1929, livro com poemas e desenhos feitos por ela:



“...a minha gata é safada e corriqueira...

arremeda ‘picassol’

trepa na trave do galinheiro e preguiçosamente escancara a

boca e as pernas.

...a minha gata é vampira...

mimo de um italiano velho e apaixonado. general de brigada. dois

metros de altura. pelado e sentimental. atavismo.

o luxo da minha gata é o rabo

ela pensa que é serpente...”



A partir dessa apresentação, Pagú torna-se conhecida para além dos artistas e intelectuais que freqüentavam a Alameda Barão de Piracicaba. A relação dela com Tarsila e Oswald era cada vez mais estreita – especialmente com este último, com quem inicia um romance neste mesmo ano de 1929. Oswald descreveria de forma bem humorada o abalo na relação com Tarsila:



“Se o lar de Tarsila

vacila

é por causa

do angu

de Pagú”



Em 20 de julho é inaugurada no Rio a primeira exposição individual de Tarsila no Brasil. Uma comitiva de “antropófagos” formada entre outros por Pagú, Anita Malfatti, o pintor Waldemar Belisário e Oswald acompanha a pintora à cidade. Em reportagem à revista Para Todos... (“Na exposição de Tarsila”), Clóvis de Gusmão publica uma breve entrevista de Pagú:



“Pagú veio ao Rio com Tarsila (...) a gente quando vê Pagú repete pra dentro aquilo que o Bopp escreveu: - dói – porque é bom de fazer doer!

- Que é que você pensa, Pagú, da antropofagia?

- Eu não penso: eu gosto.

- Tem algum livro a publicar?

- Tenho: a não publicar: os “60 poemas censurados” que eu dediquei ao Dr. Fenolino Amado, diretor da censura cinematográfica. E o Álbum de Pagú – vida paixão e morte – em mãos de Tarsila, que é quem toma conta dele. As ilustrações dos poemas são também feitas por mim.

- Quais as suas admirações?

- Tarsila, Padre Cícero, Lampeão e Oswald. Com Tarsila fico romântica. Dou por ela a última gota do meu sangue. Como artista só admiro a superioridade dela.

- Diga alguns poemas, Pagú.



(Informações: - Pagú é a criatura mais bonita do mundo – depois de Tarsila, diz ela. Olhos verdes. Cabelos castanhos. 18 anos. E uma voz que só mesmo a gente ouvindo).”



É provável que a mesma beleza que encantara o repórter tenha feito com que Oswald deixasse Tarsila para se unir a Pagú. Grávida de Oswald, Pagú casa-se em 28 de setembro com o pintor Waldemar Belisário, como forma de manter as aparências. Mas tudo fora planejado por Oswald com o consentimento do pintor, que devia favores pessoais a ele. Logo após a cerimônia civil, o casal partiu em lua-de-mel para Santos mas, no alto da serra, Waldemar trocou de lugar com Oswald, que os esperava, e voltou para São Paulo. O casamento foi anulado em 5 de fevereiro de 1930.



Em 5 de janeiro de 1930 Pagú e Oswald casam-se em frente ao jazigo da família do escritor, conforme escreve Oswald em O romance da época anarquista ou Livro das horas de Pagú que são minhas, espécie de diário iniciado em maio de 29, provavelmente data do início do romance entre os dois:



“1930, 5 de janeiro. Nesta data, contrataram casamento a jovem amorosa, Patrícia Galvão e o crápula forte, Oswald de Andrade. Foi diante do túmulo do Cemitério da Consolação, à Rua 17, n.º 17, que assumiram o heróico compromisso. Na luta imensa que sustentaram pela vitória da poesia e do estômago, foi grande o passo prenunciador, foi o desafio máximo. Depois se retrataram diante de uma igreja. Cumpriu-se o milagre. Agora, sim, o mundo pode desabar.”




O CASAL QUE NÃO CABE NA SOCIEDADE E A MILITÂNCIA POLÍTICA




Mas o mais novo casal “antropófago” não encontrou as portas da sociedade paulistana abertas. Segundo Flávio de Carvalho, “quando Oswald rompeu com Tarsila, ligando-se a Patrícia Galvão, foi repudiado pela sociedade”. Olívia Guedes Penteado, famosa senhora da elite incentivadora dos jovens modernistas, recusa-se a receber o novo casal. Além disso, a crise de 1929 abalou seriamente a situação financeira de Oswald. Para fugir dos credores ele isolou-se com Pagú na Ilha das Palmas, em Santos. Outro endereço do casal foi a Vila Rafael, uma chácara no hoje bairro de Santo Amaro, onde vivia também Oswald de Andrade Filho, apelidado Nonê.



Em 25 de setembro de 1930 nasce Rudá de Andrade, primeiro filho de Pagú e segundo de Oswald. Segundo Boaventura, nessa época “Oswald vivia irresponsavelmente um sonho. Retalhava sua herança e a do filho, vendendo atabalhoadamente pedaços de terrenos para sobreviver. Fazia pouco caso de dinheiro, pois esperava a revolução iminente que iria socializar tudo. Nas ausências e retiradas estratégicas de Oswald e Pagú, quer para fugirem da polícia, quer para se dedicarem às tarefas políticas, Nonê tomava conta de Rudá”.



Três meses após o nascimento de Rudá, Pagú viaja para Buenos Aires para participar de um festival de poesias. Lá conhece Luís Carlos Prestes e volta entusiasmada com os ideais comunistas. Ao retornar ingressa no Partido Comunista e convence Oswald a filiar-se também. Começa então para ambos um período de intensa militância política, com um estilo de vida oposto ao que haviam se acostumado até então. As festas e reuniões em sociedade cedem lugar à militância e à incerteza. Em março de 1931 fundam o jornal tablóide O Homem do Povo que, segundo seu programa, embora não fosse filiado a nenhum partido apoiaria “a esquerda revolucionária em prol da realização das reformas necessárias”. Pagú escrevia artigos, fazia desenhos, charges e vinhetas, além de assinar a seção “A Mulher do Povo”, em que criticava as “feministas de elite” e as classes dominantes. O jornal durou apenas oito números, sendo impedido de circular pela polícia após a confusão gerada por ataques de Oswald à faculdade de Direito, que foi chamada por ele de “cancro” que minava o estado. O Homem do Povo acabou fechado por determinação do Secretário de Segurança do Estado.





PRISÃO POLÍTICA E PARQUE INDUSTRIAL
Pagú escreve o seu romance Parque Industrial que Oswald de Andrade edita. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA.


Pagú, que já havia participado das agitações de rua por ocasião da Revolução de 1930, participa de movimentos de operários da construção civil em Santos e em 23 de agosto de 1931 é presa como agitadora num comício de estivadores em greve na cidade. Oswald, na tentativa de ajudá-la, faz-se passar por seu advogado e também é preso. Ao ser libertada, o Partido Comunista, para se eximir de culpa, obriga-a assinar um documento em que se declarava uma “agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”.



Em 1932 Pagú e Oswald já não vivem mais juntos. Ela vai para o Rio e instala-se numa Vila Operária, trabalhando como lanterninha num cinema da Cinelândia. Era parte do projeto do Partido fazer com que os intelectuais experimentassem o modo de vida e o trabalho dos operários. Apesar do entusiasmo mostrado pelos dois, a maioria dos companheiros do PC não acreditava nas intenções de Oswald e Pagú, conforme se observa nas memórias de um militante da época: “um desses elementos, podemos dizer perniciosos, era uma moça (poetisa) chamada Pagú, que vivia, às vezes, com Oswald de Andrade. Ambos haviam ingressado no Partido, mas para eles, principalmente para Oswald, tudo aquilo lhes parecia muito divertido. Ser membro do PC, militar ao lado dos operários ‘autênticos’, tramar a derrubada da burguesia e a instauração de uma ‘ditadura do proletariado’, era sumamente divertido e emocionante.” (depoimento de Leôncio Basbaum, 1978)



Em janeiro de 1933 Pagú lança seu primeiro romance, Parque Industrial – romance proletário, com edição financiada por Oswald. A autora esconde-se sob o pseudônimo de Mara Lobo por exigência do Partido Comunista. Esteticamente, Parque Industrial se insere nas experiências modernistas, notadamente com influências de Oswald de Andrade - que havia lançado seu Memórias sentimentais de João Miramar em 1924. É uma narrativa urbana, cujo foco central são os trabalhadores – ou melhor, as trabalhadoras – das indústrias da cidade de São Paulo, vivendo miseravelmente esmagadas pelas classes dominantes. Além de poder ser visto como um documento das ideologias de uma época, Parque Industrial é também um belo exemplo de uma experiência de linguagem.





MOSCOU, UM DESENCANTO
NO BRASIL, PRISÃO E TORTURA


Em dezembro do mesmo ano, Pagú sai em viagem pelo mundo na intenção de estudar e verificar in loco, na Rússia, como estava se executando na prática a ideologia pela qual lutava. Oswald ajuda no custeio da viagem e fica tomando conta de Rudá. Ela atua como correspondente dos jornais Diário da Noite (SP), Diário de Notícias e Correio da Manhã (RJ). Visita os Estados Unidos, Japão e China – onde entrevista Sigmund Freud. Da China parte para Moscou, em maio de 1934, numa viagem de oito dias pelo Transiberiano. A realidade que vê nas ruas da cidade a deixa profundamente decepcionada: “o ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas, os pés descalços e os olhos agudos de fome. Em Moscou, um hotel de luxo para os altos burocratas, os turistas do comunismo, para os estrangeiros ricos. Na rua as crianças mortas de fome: era o regime comunista” (Verdade e Liberdade, 1950).



Sai de Moscou em direção à França, onde se estabelece por um tempo, freqüentando cursos da Université Populaire. Filia-se ao Partido Comunista francês com a identidade falsa de Leonnie, e participa de manifestações ao lado da Front Populaire (união dos partidos de esquerda). É detida três vezes antes de ser presa como militante comunista estrangeira, em julho de 1935. Salva de ser submetida ao Conselho de Guerra ou deportada para Itália ou Alemanha pelo embaixador Souza Dantas, acaba sendo repatriada.



Volta ao Brasil no fim do ano, quando se separa definitivamente de Oswald. Passa a colaborar no jornal A Platéia mas, pouco depois de sua chegada, é presa em razão da Intentona Comunista. Condenada a dois anos de prisão, fica nos presídios Paraíso e Maria Zélia, em São Paulo, mas foge antes de completar a pena. Presa novamente, é condenada a mais dois anos e meio de prisão, que cumpre dessa vez na Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Além das torturas, Pagú sofre perseguições dos próprios correligionários de partido. Há nos seus arquivos uma carta desse período, cheia de desesperança, enviada ao futuro marido Geraldo Ferraz: “(...) Escrevo o retrocesso constatado no dia de hoje. Não consigo viver a vida artificial dos últimos dias em que me dissolvia na vida coletiva da prisão. Onde é que eu ia buscar o entusiasmo senil pelo lúmpen quando a própria lama hoje me decepciona? (...)”



Cumprida a pena, Pagú fica ainda na prisão por mais seis meses, por se recusar a prestar homenagem a Adhemar de Barros, então interventor federal em visita ao presídio. É libertada em julho de 1940, muito doente, pesando 44 quilos. A temporada de quase cinco anos de cárcere deixou marcas profundas na antiga musa antropofágica. Segundo a irmã Sidéria, ela tentou o suicídio logo após sair da prisão.





FORA DA CADEIA, INTENSA ATUAÇÃO JORNALÍSTICA


A saída da prisão marca uma nova fase na vida de Pagú. Ela passa a viver com Geraldo Ferraz, que seria seu companheiro até sua morte. Rompe com o Partido Comunista. Tem o segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, em 1941, e passa a colaborar em diversas publicações como redatora, cronista ou crítica.

Durante toda a década de 1940, Pagú trabalha ativamente na imprensa, muitas vezes exercitando combativamente a crítica literária. Ela reclama da capitulação dos autores que, na vigência do Estado Novo, justificavam sua inércia pela falta de liberdade no país. Conforme nota o poeta Augusto de Campos, nas críticas que escrevia sente-se, apesar do desencanto e decepções, uma disposição de luta pela manutenção do espírito renovador de 22. Entre outros veículos, ela trabalha, nesse período, nos jornais cariocas A Manhã, O Jornal, e nos paulistas A Noite e Diário de São Paulo.



Entre junho e dezembro de 1944, ela colabora como contista na revista Detetive, dirigida por Nelson Rodrigues. Na publicação, de grande popularidade à época, Pagú escrevia contos de suspense sob o pseudônimo de King Shelter. No ano seguinte, lança seu segundo romance, A Famosa Revista, em colaboração com Geraldo Ferraz. Se Parque Industrial fora escrito por uma Pagú militante, crente na iminência da revolução, A Famosa Revista caracteriza-se pela crítica e denúncia dos males do Partido Comunista. Nesse sentido, pode-se dizer que o segundo livro é o oposto do primeiro.

A década de 50 se inicia com uma nova incursão de Pagú na política. Ela concorre a uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro, mas não é eleita. Como parte da campanha, publica o panfleto Verdade e Liberdade, editado pelo comitê Pró-Candidatura Patrícia Galvão, em que comenta sua passagem pela prisão, a desilusão com o Partido Comunista e o porquê de sua candidatura:



(...) De degrau em degrau desci a escada das degradações, porque o Partido precisava de quem não tivesse um escrúpulo, de quem não tivesse personalidade, de quem não discutisse. De quem apenas ACEITASSE. Reduziram-me ao trapo que partiu um dia para longe, para o Pacífico, para o Japão e para a China, pois o Partido se cansara de fazer de mim gato e sapato. Não podia mais me empregar em nada: estava ‘pintada’ demais. (...) Em 1935, procurei uma revolução que o Partido preparava e não achei revolução nenhuma. Nos pontos, nas esquinas, nenhuma voz, nenhum gesto. Apenas o fiasco. Mais uma vez, o fiasco (...) E todos nós para a cadeia (...) Outros se mataram. Outros foram mortos. Também passei por essa prova. Também tentaram me esganar em muito boas condições. Agora, saio de um túnel. Tenho várias cicatrizes, mas ESTOU VIVA.”





APAIXONADA PELO TEATRO, QUER SER PATRÍCIA DE NOVO


A década de 1950 marca também uma aproximação cada vez maior com o teatro. A partir de 1952 ela passa a freqüentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD), sob direção de Alfredo Mesquita, que lembra que, nessa época, ela já não era mais a chocante e extravagante Pagú, mas uma arredia e calada Patrícia: “conversávamos longamente, amigavelmente, enquanto havia pouca gente à volta. Mal aumentava a roda e Patrícia – como queria que a chamássemos – calava-se arredia, assustadiça, para logo se esgueirar e sumir. Assim era a famosa, a terrível, a assustadora Pagú”.



Pagú passa a ter aulas com Alfredo Mesquita (“aluna ainda, mas não mais subversiva, agressiva, escandalosa como nos tempos da ‘Praça’. Entusiasta, aplicada, séria, divertida...”), Décio de Almeida Prado, Ziembinsky e outros mestres. Leva para Santos a apresentação de “A Descoberta do Novo Mundo”, de Lope de Vega, realizada pela EAD, iniciando uma série de espetáculos da Escola na cidade. A partir desta época Patrícia exerce importante papel na vida cultural de Santos, liderando a campanha para a construção do Teatro Municipal e formando grupos amadores de teatro, além de fundar a Associação dos Jornalistas Profissionais de Santos. Também criou e presidiu a União do Teatro Amador de Santos, por onde passaram, ainda iniciantes, atores como Aracy Balabanian, José Celso Martinez Correa, Sérgio Mamberti e Plínio Marcos.



Na imprensa dedicou-se às páginas culturais, publicando artigos e páginas especiais sobre escritores, poetas e dramaturgos como Ionesco, Brecht, Fernando Pessoa, Dostoiévsky, Rilke e Pirandello. Também foi responsável por traduções pioneiras de escritores então pouco conhecidos no Brasil: Blaise Cendras, Svevo e Arrabal. Deste último encenou, em estréia mundial, a peça ‘Fando e Lis”, com o Grupo Experimental de Teatro Infantil (GETI).



Esclarecendo sua preferência pelo teatro experimental afirmou: “Preferimos a vanguarda, porque visa ela corrigir os vícios e os hábitos de se assistir teatro normal, teatro repetido, teatro que deixa espectador e atores indiferentes. Preferimos aqueles momentos capazes de sacudir o sono do mundo, como lembrava, certa vez, o velho mestre Sigmund Freud. Pois que o mundo dorme.”



O compositor santista Gilberto Mendes, em suas memórias, afirma que “Pagú tinha um humor, uma perspicácia e finura intelectual especiais. E gostava das pessoas, de ajudar (...) Nesses mais ou menos dez últimos anos de sua vida em Santos, Pagú andava esquecida, quase ninguém falava dela no Brasil, era uma figura anônima pelas ruas da cidade, pelas platéias dos teatros, integrada na vidinha artística da província, animando a gente, escrevendo sobre nós, músicos, atores, diretores (...) Era uma mulher formidável”. Seu prolífico trabalho de crítica nos jornais - polemizando, comprando brigas, combatendo - e seu intenso trabalho com o teatro só são interrompidos com sua morte, provocada por um câncer.



Desejava que seus livros sobre teatro fossem doados para a EAD após sua morte. Alfredo Mesquita recorda-se do pedido da amiga: “lembro-me ainda do dia em que, sabendo-se gravemente doente, disse-me pretender entregar imediatamente a sua biblioteca à Escola. Assustado, não querendo por nada acreditar no que dizia a respeito da saúde, recusei a oferta.” Mas a doença evoluiu e Mesquita foi obrigado a acatar o pedido: “vi-a ainda duas vezes, em casa de parentes, sentada na cama, o tronco ereto, fumando, fumando sempre, os olhos muito pretos, ainda vivos, fixos em mim com aquela expressão de angústia e interrogação dos que vão morrer. Já não podia levantar-se e mal conseguia falar. Das duas vezes, repetiu baixinho: - não se esqueça dos livros, são seus...”.



Em setembro de 1962 viaja a Paris para ser operada. Na véspera, um último texto seu é publicado em A Tribuna - o poema “Nothing”:



“Nada, nada, nada

Nada mais do que nada

(...) Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas

Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava

Um cão rosnava na minha estrada

(...) Abri meu abraço aos amigos de sempre

Poetas compareceram

Alguns escritores

Gente de teatro
Birutas no aeroporto

E nada”



A operação fracassa e ela tenta o suicídio. Volta ao Brasil e em 12 de dezembro de 1962 morre em Santos.



“Deu-se esta semana uma baixa nas fileiras de um agrupamento de raros combatentes. Ausência desde 12 de dezembro de 1962, que pede seu registro do companheiro humilde, que assina estas linhas. Patrícia Galvão morreu neste dia de primavera, nessa quarta-feira, às 16 horas (...) Morreu aqui em Santos, a cidade que mais amava, na casa dos seus, entre a Irmã e a Mãe que a acompanhavam, naquele momento e, felizmente, em poucos minutos, apenas sufocada pelo colapso que a impedia de respirar, pela última palavra que pedia ainda liberdade, ‘desabotoa-me esta gola’”. (Geraldo Ferraz, A Tribuna, 16/12/1962)




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Saturday, May 21, 2011

PROFESSORA AMANDA GURGEL

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Tuesday, December 28, 2010

Tempo

Em vez de passar o tempo, é preciso convidá-lo para entrar.

                                               Walter Benjamim

Tuesday, December 14, 2010

O BEIJÓDROMO

Uma década e meia depois, a UnB inaugura o "beijódromo" imaginado por Darcy Ribeiro. Por Cynara Menezes

Uma década e meia depois, a UnB inaugura o “beijódromo” imaginado por Darcy Ribeiro



Nuvens claras cobriam o céu de Brasília na quarta-feira 8. Fazia calor, mas, graças às paredes laterais móveis, uma brisa fresca circulava pelo auditório. Do lado de fora, nos bancos ao redor do espelho-d’água que circunda o prédio, a temperatura estava parti-cularmente agradável por causa dos chafarizes instalados no fosso, cujos borrifos são aproveitados para refrescar o interior do Memorial Darcy Ribeiro. Enfim, tudo parecia conspirar a favor de uma tarde propícia para beijos à farta, mas não se viam muitos pombinhos arrulhando por ali.



O beijódromo sonhado pelo antropólogo e ex-senador Darcy Ribeiro em 1996, um ano antes de sua morte, foi finalmente inaugurado por Lula na segunda-feira 6. Acompanhado do colega uruguaio José Mujica, amigo de Darcy, e do ministro da Cultura, Juca Ferreira, o presidente enfrentou o protesto de um grupo de estudantes contra o reitor da universidade, para quem o memorial não era tão urgente quanto outras obras.







Apressada em uma semana para tornar possível a vinda de Mujica, que transmitiu o desejo de estar presente à cerimônia, a obra podia até não ser urgente, mas repara uma dívida antiga da UnB com Darcy, seu criador, ao lado do educador Anísio Teixeira. O antropólogo idealizara uma universidade-modelo e trouxera para a capital do País, em 1961, mais de 200 educadores, cujo talento pretendia utilizar para, em -suas palavras, “plantar a sabedoria humana”. Veio o golpe militar e a universidade teve seu destino desvirtuado, mas o acadêmico, que partiu para o exílio, nunca deixaria de considerar a UnB como sua “filha”.



No memorial, há uma exposição permanente sobre a obra e a vida de Darcy, com objetos indígenas e de uso pessoal, folhetos de sua carreira política, fotos e documentos, como uma carta que escreveu ao economista Celso Furtado em 1969. Exilado na Venezuela, Darcy se encontrava em apuros com a Universidade de Caracas, também invadida por militares, e enviava a Furtado seu currículo, em busca de emprego. Ao lado da exposição, no primeiro andar, a biblioteca tem cerca de 30 mil volumes, do acervo dele e de sua primeira mulher, a também antropóloga Berta G. Ribeiro.



Mas o xodó do complexo é mesmo o beijódromo propriamente dito: o auditório do memorial, onde acontecerão shows- e palestras a partir de fevereiro. Na ideia que Darcy, já enfraquecido pelo câncer, transmitiu ao arquiteto João Filgueiras, o Lelé, um dos talentos que ele trouxe para a universidade na época de sua criação, “trata-se de um amplo palco ao ar livre para serestas e leitura de teatro e poe-sia, defronte de uma arquibancada para 200 olharem a lua cheia e se acariciarem. Eu, lá de longe, estarei vendo, feliz”.



A única mudança no projeto feita por Lelé agora foi a colocação de uma cobertura no beijódromo, para proteção dos equipamentos. O arquiteto concebeu um espaço que “lembra um pouco um disco voador ou uma mistura da maloca dos xavantes com a dos kamayanás”, que Darcy tanto admirava. Como os demais projetos de Lelé, a exemplo dos hospitais da rede Sarah, o memorial possui muita luz natural e outras características que o fazem ecologicamente correto. Não há ar condicionado: um exaustor situado no topo da “maloca” puxa o ar quente para cima, ao mesmo tempo que o prédio é todo resfriado pelo aproveitamento da água borrifada pelos chafarizes.







No espelho-d’água, abastecido pela chuva, menos nos meses de seca, foram colocados 10 mil peixes “barrigudinhos”, comedores de larvas de mosquitos. “Usamos esses peixinhos no Hospital Sarah do Rio e deu supercerto contra o mosquito da dengue”, conta a filha do arquiteto e sua parceira na obra, Adriana Filgueiras. Todos os móveis do memorial, assim como o elevador panorâmico, foram desenhados por Lelé e fabricados ali mesmo. No centro do prédio, há um jardim com plantas de flores vermelhas, para combinar com as finalidades românticas imaginadas por Darcy. Ele costumava dizer que criou o Sambódromo, no Rio, sem saber sambar, mas que queria um “beijódromo” na sede da fundação porque, gabava-se, beijar era o seu forte. “Eu gosto é de beijar e namorar”, afirmava.



Segundo a diretora do memorial, Laura Murta, embora o beijódromo seja só o auditório, todos os espaços do lugar são beijáveis. “A ideia é que o prédio seja efetivamente e afetivamente utilizado.” Nenhum tipo de beijo, promete, será proibido. “O memorial tem de ser a síntese da universidade tal como foi imaginada por Darcy: ninguém podia ser premiado ou punido por suas ideias e atos”, confirmou o presidente da Fundação Darcy Ribeiro, Paulo Ribeiro, sobrinho do antropólogo.







Ou seja, está liberado o beijo entre meninos e meninas, e também vale homem com homem e mulher com mulher. Aliás,- só para confirmar, o ósculo de inauguração do beijódromo foi dado por Paulo em ninguém menos que o presidente Lula. “Na testa”, ele esclarece. Tanta modernidade agradou ao casal de “ficantes” Rodrigo Oliveira, 21 anos, estudante de Relações Internacionais, e Kaio Maia, 22, de Letras. “O lado simbólico do beijódromo é muito importante. Num momento em que os gays estão ouvindo tanto ‘aqui não é lugar para isso’, aparece um local feito justamente para isso”, opinou Rodrigo – que ficou tímido e evitou dar um beijo em Kaio.



O que traz à cabeça a pergunta: será que um lugar feito para beijar não inibe os beijoqueiros? Como se o beijo, em lugar de desfrute, se transformasse em obrigação? O estudante de doutorado em Direito Humberto Góes, 32 anos, desenvolve sua tese: “Acho que não. Ao contrário, o local é em tudo propício ao beijo e às manifestações amorosas. Observe que as cadeiras não têm braços. Sinal de que as pessoas, até por não terem onde se apoiar, vão preferir ficar abraçadinhas”. Cada beijo, beijinho e beijoca no local terá um patrono: Darcy Ribeiro

O PRAZER DEIXA MUITO A DESEJAR

CONTEÚDO LIVRE










ARNALDO JABOR - O prazer deixa muito a desejar

Amigos me perguntam: você fez "A Suprema Felicidade", mas, o que é o prazer para você? Penso, penso e respondo: "Sei lá...".



Mas, como insistem, vamos tentar.



O prazer pode nos dar culpa e a culpa pode dar prazer. Os masoquistas sabem disso: todo prazer será castigado. Por isso, muitos preferem o doce sentimento de culpa, porque, se somos castigados antes, podemos ruminar sem medo o nosso vazio.



O prazer deixa muito a desejar, o prazer nos deixa insatisfeitos porque acaba logo. O problema do prazer é que ele sempre demanda mais prazer, orgias mais perversas, drogas mais alucinantes. O prazer não quer ter fim. "Ah... e a felicidade?" - perguntam-me. (Se bobear, viro conselheiro sentimental...). Bem, a felicidade seria um prazer mais duradouro, comedido. Mas a felicidade está fora de moda em tempos tão velozes.



A felicidade é analógica e o prazer digital. A felicidade ficou chata, tem de ser administrada, dosada e é feita também de dores, sofrimentos e dúvidas. O prazer não; pega, mata e come. Todos fingem ter prazer - é mais comercial. As caras das revistas ostentam uma gargalhada eterna. Prazer é voraz; quer botar o mundo para dentro, sugar, comer o mundo como um pudim, pela boca, por todos os buracos. Prazer é "cool". Felicidade é careta.



Mas, vamos nos deter no capítulo do orgasmo, este retumbante final de sinfonias. O problema do orgasmo é a memória e a esperança. É bem fácil se lembrar de um grande gozo no passado (mesmo ilusório) ou imaginar um grande uivo no futuro que ainda não chegou. Já o orgasmo no presente é assaltado por muitos estorvos: uma sirene de polícia, o medo de falhar, a campainha do vizinho.



Há-os de vários tipos: o básico, o decepcionante e o apoteótico. De cinco estrelinhas a pontinho preto.



O apoteótico é raríssimo, é uma utopia que desqualifica os básicos tremores. Conheço um sujeito que na hora H pensou num gol de placa do Ronaldinho e quase subiu aos céus (apoteose). Um outro, que tinha ejaculação precoce, gozou ao apertar o botão do elevador da casa da mulher que tanto ambicionava. Fora isso, temos o básico, o arroz com feijão: "Pronto, meu bem, agora vamos jantar".



Mas, você só pensa em sexo, dirão vocês. É... fazer o que, se o sexo está tomando o lugar de todos os outros desejos? A verdade é que o prazer anda de cabeça baixa, deprimido, apesar do eufórico exibicionismo em revistas de celebridades. O prazer é obrigatório no mercado. O que nos falta, então? Falta o pecado. Todos podem tudo: "Sim, eu gosto de atacar nos mictórios das rodoviárias e me orgulho de minha tara!" - diz o perverso sorrindo na TV. A permissividade total esvai a tesão. O prazer precisa da proibição. "Sem lei, não há gozo", diria Lacan se masturbando.



Aliás, o vício solitário é bem seguro. A punheta é metafísica. Ela é onisciente e gira em todas as direções, é um caleidoscópio de mulheres ou de homens. Um dos sintomas desse mundo louco é a masturbação. Não me refiro à mera "coça na miúda", nem no "estrangulamento do pele-vermelha", mas à masturbação na alma de vidas autorreferentes, ao narcisismo de seres perdidos num deserto de possibilidades sem fim. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão solitários. Tínhamos pecados e proibições perfumando os prazeres, mas hoje ficou tudo referido ao sexo, para substituir frustrações políticas e sociais. A masturbação existe até no grande amor romântico, em que os dois narcisismos se tocam, se beijam, se arranham, mas não se comunicam.



Neste mundo solitário, temos o "hype" da masturbação feminina, com o vibrador, o consolador de viúvas e solteironas. O vibrador tem vida própria, sem o incômodo inconsciente, sem diálogos constrangedores. O vibrador não é um pedaço - está inteiro; o homem, o "outro", é que foi amputado dali. O consolador, o vibrador é um amante delicado sempre pronto a satisfazer sua dama. E ela pode imaginar o homem perfeito ali, entre suas mãos.



Os homens também gostariam de ter sua autonomia: serem livres e soltos como um pênis voador, comendo todo mundo com movimentos giratórios e beleza aerodinâmica.



O mercado e a tecnociência provocam mutações em nós. Não queremos amar, queremos consumir alguém. Queremos ter o ritmo das coisas e, na progressiva digitalização do sexo, os corpos tendem a ser o campo de provas da eficiência dos mecanismos de prazer.



Queremos o prazer das máquinas. E, cada vez mais, somos isso. Somos movidos por seus desejos que nos contaminam, somos movidos pela secreta vontade de existir, pois, assim como as bombas desejam explodir, os robôs também querem amar. E já somos suas cobaias inconscientes.



Mas aí, dirá o leitor mais reflexivo, mais estoico, menos epicurista, mas sábio e, talvez, mais velho: "Sim, mas e a contemplação calma da natureza, os lagos dourados, as flores e as crianças correndo, e as auroras, os céus estrelados? E a arte? Isso não é prazer?".



Sim, sim, mas, por trás dessa calma contemplação de auroras e belezas, florestas e oceanos, há um ensaio para o fim, há o preparo para o maior prazer de todos, há a saudade oculta de algo que está além da vida, ou antes dela. Entre flores e lagos dourados contemplamos nosso fim. É uma saudade não sabemos de quê...



É um prazer além do prazer (Freud), é o prazer da matéria. A matéria quer paz. Nós somos um transtorno para a matéria que quer voltar a seu silêncio. A vida e o prazer enchem o saco da matéria que é obrigada a nos suportar. A matéria olha nossos arroubos de vida e espera pacientemente que acabe a valentia para voltarmos ao prado, à grama, à terra, ao sossego da tumba.



Mais além do princípio do prazer, está a invencível vontade de morrer. A matéria sonha com a paz. Somos sonhados pela matéria da qual somos apenas um tremor, um despautério, uma agitação banal. A matéria nos sonha com tanta perfeição que pensamos que temos espírito.



O prazer da matéria é paciente. Nós não sabemos ainda, mas nosso grande prazer será sentido quando não estivermos presentes.

Monday, November 22, 2010

CAFÉ FILOSÓFICO - 27/11- sábado

Café Filosófico





NARRATIVAS MUSICAIS ─ o rodopiar da história tecida no cotidiano


em Caetano e Walter Benjamim.Apresentação:


Ivone Bengochea e Ethon Fonseca


Coordenadores do PENSARE




Promovido por REDE METODISTA SUL e LIVRARIA NOVA ROMA














LIVRARIA NOVA ROMA, Gal. Câmara, 394




27 de novembro, 2010 - 15 horas

Thursday, September 23, 2010

Mais uma do Patativa

NÃO ESTÁ NO GESTO ESCRITO, QUAL A PESSOA FELIZ.

POIS MUITA VEZ O DITO, A VERDADE CONTRADIZ
                                      Patativa de Assaré

Friday, September 17, 2010

A ESTÉTICA DO CANGAÇO



Coleção Pernambucano de Mello

Inacinha, em vestido de batalha, mostra como a perneira casava com a alpercata, Piranhas, Alagoas, 1936

Monday, September 13, 2010

QUEM SOU EU NA VISÃO DOS PENSADORES

RIMBAUD
O EU É UM OUTRO

O eco


O ECO É MUITAS VEZES MAIS BELO QUE A VOZ QUE ELE REPETE. Oscar Wilde

Sunday, September 05, 2010

Ó´símbolos


A Bandeira
Será o símbolo augusto da Paz?

Sunday, July 18, 2010

Domingo Chuvoso

A NATUREZA TEM AS SUAS MANIAS, UMA DELAS É CHOVER NO DOMINGO. OS HUMANOS ESPREITAM A CHUVA SAUDOSOS DOS DOMINGOS ENSOLARADOS.

Sunday, July 04, 2010

TRISTES TRÓPICOS

'E os buritis - mar, mar.' João Guimarães Rosa


MARIA RITA KEHL - O Estado de S.Paulo, 26/jun/2010


O deputado Aldo Rabelo é um patriota. Anos atrás, criou um projeto de lei contra o uso público de palavras estrangeiras no País. Não me lembro se a lei não foi aprovada ou não pegou. Somos surpreendidos agora por nova investida patriótica do representante do PC do B: substituir o verde-folha do nosso pendão por um tom mais chique, o verde-dólar. Nada contra a evolução cromática do símbolo pátrio. Mas não se esperava tamanho revisionismo da parte de um velho comunista: o projeto de revisão do código florestal proposto por Rabelo é escandaloso.

Ou não: se o PC do B ainda tem alguma coisa a ver com a China, nada mais compreensível do que a tentativa de submeter o Brasil à mesma voracidade do país que hoje alia o pior de uma ditadura comunista com o pior do capitalismo predatório: devastação da natureza, salários miseráveis, repressão política.

E nós com isso? Nós, que não somos chineses - por que haveremos de nos sujeitar aos ditames da concentração de renda no campo que querem nos impingir como se fossem a condição inexorável do desenvolvimento econômico? Não sou economista, mas aprendo alguma coisa com gente do ramo. Sigo o argumento de uma autoridade quase incontestável no Brasil, o ex-ministro do governo FHC e hoje social democrata assumido, Luis Carlos Bresser Pereira. A concentração de terras e a produtividade do agronegócio, boas para enriquecer algumas poucas famílias, não são necessárias para o aumento da riqueza ou para sua distribuição no campo. Nem para alimentar os brasileiros. A agricultura familiar - pasmem: emprega mais, paga melhor e produz mais alimentos para o consumo interno do que o agronegócio. Verdade que não rende dólares, nem aos donos do negócio nem aos lobistas do Congresso. Mas alimenta a sociedade.

Vale então perguntar quantos brasileiros precisam perder seus empregos no campo, ser expulsos de seus sítios para viver em regiões já desertificadas e improdutivas, quantas gerações de filhos de ex-agricultores precisam crescer nas favelas, perto do crime, para produzir um novo rico que viaja de jatinho e manda a família anualmente pra Miami? Quanto nos custa o novo agromilionário sem visão do País, sem consciência social, sem outra concepção da política senão alimentar lobbies no Congresso e tentar extinguir a luta dos sem-terra pela reforma agrária?

Meu bisavô Belisário Pena foi um patriota de verdade. Um médico sanitarista que viajou em lombo de burro pelo interior do País para pesquisar e erradicar as principais doenças endêmicas do Brasil no início do século 20. O relato da expedição empreendida por ele e Arthur Neiva pelo norte da Bahia, Pernambuco, sul do Piauí e Goiás, em 1912, virou um livro que eu ganhei do professor Antonio Candido. A pesquisa começa pela descrição do clima, ou seja, da seca, e segue a descrever a "diminuição das águas" no interior. Reproduzo a grafia da época: "Não há duvida de que a água diminue sempre no Brazil Central; o morador das marjens dos grandes rios não percebe o fenômeno, mas o depoimento dos habitantes das proximidades dos pequenos cursos e de coleções d"agua pouco volumosas é unânime em confirmar este fato. De Petrolina até a vila de Paranaguá, não se encontra um único curso perene. O Piauhy, encontramo-lo cortado (com o curso interrompido) ; o Curimatá, completamente sêco; para citar os maiores (...) Acresce que, em toda a zona, o homem procura apressar por todos os meios a formação do deserto, pela destruição criminosa e estúpida da vejetação".

Os professores Jean Paul Metzger e Thomas Lewinsohn, no Aliás de domingo passado, acusam a falta de embasamento científico do projeto de Aldo Rabelo. Mas mesmo sem o aval de cientistas sérios, já é de conhecimento geral o que meu bisavô constatou em 1912: a evidente relação entre o desmatamento, a diminuição das águas e a desertificação do interior do País.

O novo código de "reflorestamento" propõe reduzir de 30 para 7,5 metros a extensão obrigatória das matas ciliares nas propriedades rurais. Uma faixa vegetal mais estreita do que uma rua estreita não dá conta de impedir o assoreamento dos rios que ainda não secaram, nem barrar a devastação pelas cheias como a que hoje vitima tantos moradores da Zona da Mata. Quem nunca observou, sobrevoando o Brasil central, que os rios que não têm mais vegetação nas margens estão secos? Outra piada é isentar as pequenas propriedades da reserva florestal obrigatória. Se até o gênio do mal que mora em mim já teve essa ideia, imaginem se ninguém mais pensou em dividir grandes fazendas em pequenos lotes "laranjas" para se valer do benefício?

Por desinformação ou má-fé, os defensores do desmatamento alardeiam que essa é uma disputa entre desenvolvimentistas e amantes do "verde". Mentira. O objeto da disputa é o tempo. O projeto de Rabelo defende os que querem agarrar tudo o que puderem, já. No futuro, ora: seus netos irão estudar e viver no exterior. Do outro lado, os que se preocupam com as gerações que vão continuar vivendo no Brasil quando todo o interior do País for igual às regiões mais secas do Nordeste atual - algumas das quais já foram ricas, verdes e férteis, antes de ser desmatadas pela agricultura predatória. Que pelo menos contava, no início do século 20, com o beneplácito da ignorância.

Sunday, June 20, 2010

ECCE HOMO


SIM, EU SEI MUITO BEM DE ONDE VENHO!
INSACIÁVEL COMO A CHAMA NO LENHO
EU ME INFLAMO E ME CONSUMO.
TUDO O QUE EU TOCO VIRA LUZ
TUDO O DEIXO CARVÃO É FUMO.
CHAMA EU SOU, SEM DÚVIDA

Friday, May 28, 2010