Friday, June 29, 2007

OS OLHOS DO OFTALMO

OS OLHOS DO OFTALMO

Nas lentes poderosas em poder do Oftalmo não há mistério que resista, todos são inevitavelmente devassados.

Afinal, o que se busca num consultório médico, a não ser que devassem os nossos males em todos os graus?
Mas, como sempre há um ser humano por detrás dos óculos, inevitavelmente, há um homem oculto examinando os nossos olhos.

Esse homem é o Oftalmo especial para quem dedico uma homenagem especial em nome dos tempos em que não usávamos lentes e nos olhávamos olhos nos olhos. Tão próximos que nos confundíamos e devassávamos a cor das nossas íris.
Mas, hoje, tão longe precisamos de lentes poderosas para permutar nossas mensagens eletrônicas.
Dedico para quem me ensinou ler Paulo Freire, ainda em espanhol e sem lentes de grau.

Wednesday, April 25, 2007

MISTÉRIO

Affonso Romano de Sant'Anna

Mistério

O mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo
e nunca termina.




* Este poema foi recitado na voz de Tônia Carrero no CD "Affonso Romano de Sant'Anna por Tônia Carrero" da Coleção "Poesia Falada".

Saturday, March 03, 2007

AS PALAVRAS EM BUSCA DE RESPOSTAS

O que será que acontece com as palavras quando elas desaparecem?

Ou será que brincam de esconde-esconde e temos buscá-las nos esconderijos dos tempos. Para onde vão as juras de amor eterno ou as terríveis sentenças de amores findos.
“Tantas palavras que eu conhecia, saíram de cartaz”. Seria muita ousadia questionar o Chico Buarque. Não me animo. Sou uma tiete inveterada e ficaria muda na sua presença. O Chico alimenta eternamente o imaginário da minha geração, dá alento aos devaneios existenciais transcende o tempo vivo. Ele fala, eu calo. Na sua presença eu fico a contemplar seus olhos multicoloridos. Bem que gostaria, é claro. Sonhar viajando nas canções ainda é permitido.

O que acontece quando as imagens valem mais que mil palavras?

Ai teria que buscar as chaves guardadas pelo Almodóvar. Meu Deus! É paranóia, megalomania? Não sei, ou não quero admitir. As mulheres do cineasta são reais, mesmo na pele de seus personagens. São engraçadas, riem e choram com elegância, só Almodóvar é capaz de dosar elegância nas horas trágicas. É elegante também na denúncia que permeia o mundo feminino. É permitido enlouquecer com ele, cantar, dançar e volver às origens.
Dedico a todos os homens solidários mesmo que não sejam poetas nem cineastas

Monday, February 19, 2007

VIDAS PARALELAS

Das muitas veredas que percorremos, em quase todas ficaram as nossas marcas indeléveis. Sinais, cifras e traços, às vezes invisíveis aos olhos dos transeuntes desavisados, mas perceptíveis aos caminhantes que como nós portadores de sonhos e com espírito apaixonado.
Foram, também, nas mesmas veredas que nos perdemos e nos achamos e nas quebradas das ruas desertas permanecem os vestígios dos nossos beijos furtivos, a gostosura dos nossos amassos e nossa imensa fome de amor, permanentemente insaciável. Tudo muito rápido, às escuras, com medo do flagra. E, nesse vai e vem experimentamos os riscos das noites breves, mas intensas em que tínhamos como fiel companheiro: o perigo. Viver sempre é perigoso. Nossas roupas coloridas brilhavam a luz da lua e os nossos corpos desfrutavam o sabor da aragem que refrigera as almas e que funcionava como antídoto
Quando o dia raiava éramos essencialmente normais, normalíssimos, tão certinhos e marcadamente monótonos. Desempenhávamos com eficiência a nossa rotina a luz do sol, os passos certos, os sentimentos contidos. Parecíamos seres andróginos, assexuados, desprovidos de alma e sem imaginação. Discretíssimos como convinha aos prudentes papéis que nos destinaram. Era assim que sobrevivíamos para enfrentar o tempo através das nossas camuflagens. Ninguém nos reconhecia atrás daquelas vestes em preto e branco, do terno, da gravata e da comportada saia midi ou do terninho de executiva.
Na noite, éramos poetas, compúnhamos versos, e como tais conseguíamos captar as mensagens dos tempos e nos arvoramos profetas e menestréis para anunciar o mundo novo. Mas, como o mundo colorido estava ainda distante, nos restava semear na escuridão. E na escuridão semeamos, capinávamos os cardos, os espinhos que espetavam nossas mãos românticas. Sempre, sempre assim, até o próximo amanhecer.
E, assim vivemos noites e noites, dias e dias, crepúsculos e auroras. Amassávamos de noite e nos alisávamos de dia.
Escrevi para lembrar dos nossos sonhos sonhados e vividos.

Saturday, January 27, 2007

A PAZ É UMA POMBA BRANCA

É PRECISO LER OS QUE OS OUTROS ESCREVEM...
A paz é uma pomba branca

As respostas que tenho, e que a maioria tem geralmente são ilusões
Mas vou tentar falar de paz, periferia e guerra.
A paz é uma pomba branca.
Se uma criança pobre soprar, suas asas não se mexem.
Se um detento a segurar, sentirá seu peso como se fosse chumbo.
Se uma senhora aposentada a acolher em seus braços não sentirá o calor.
Se um desempregado olhar bem em seus olhos nela não verá alegria.
Se um professor a estudar, aos seus alunos não poderá ensinar.
Se um menino ou menina desse grande Brasil periferia a olhar voando, não saberá o que ela significa.
A paz é uma pomba branca.
Que apesar de tudo ainda continua voando.
E todos a vêem,
Mas só quem merece realmente a conhece.
Paz só a quem merece.
E aos que não, Guerra.

Ferréz – texto feito para o disco Direto do Campo de Exterm


Sunday, January 07, 2007

O TEMPO DOS NOSSOS SONHOS

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O presente é sempre presente, materializa-se com um acordo tácito que fizemos para desafiar o tempo aparente. No passado estão os sonhos vividos e sonhados, incrivelmente os sonhos pertencem ao tempo aparente, mesmo que parcialmente vividos. No futuro está a incerteza do que poderá vir-a-ser, também aparente. A idéia de futuro é uma abstração angustiante, talvez mais angustiante que o passado, nele os sonhos pairam no limbo, entre o bem o mal não vivido.
Vivemos entre o passado e o futuro, como diz Hannah Arend. Para ela, o passado representou vivências como um quadro de Picasso, muitas Guernicas, muitos holocaustos, com pesadelos eivados de crueldade no universo totalitário. Mas Arend viveu no presente o tórrido amor clandestino, contraditoriamente com o filósofo do desvelo e do vir-a-ser. Uma mulher filósofa e um homem filósofo oculta a paixão latente. Heiddeger era famoso, inteligente, feio, poderoso, bem casado com outra. Arend era bonita, inteligente, libertária, sem marido. Mulher sem marido está à procura de amante casado. Mesmo para as mulheres libertárias, justifica-se que alguns homens estejam no mando e que necessitem ocultar o amor. Os homens públicos são socialmente venerados, são sérios, sisudos detrás dos óculos. As mulheres públicas, se forem bonitas bem pior, são as desfrutáveis como “laranja de amostra” mesmo que filósofas, mesmo que libertárias.
Arend e Heiddegger deixaram escritos para a posteridade que dormem nas prateleiras da academia bem como as suas explicações sobre o mundo, sobre a vida, sobre o passado e o futuro. Muitas explicações sobre o pensamento e reflexão sobre a realidade vivida. Pouca gente se interessa pelo seu romance. O tempo passou. Será que o tempo passa?
Outro compatriota de Arend e Heiddegger declarou que é preciso deixar o tempo entrar. Walter Benjamim sentiu o peso dos anos sangrentos do nazismo, pagou caro pela coerência, por sua ideologia e, por sua opção amorosa. Amou às claras e não suportou o alvissareiro progresso presente, deixou escrito em vermelho as terríveis sensações do quadro Angelos Novos de Klee. Não viveu de futuro, nem do passado, deixou o tempo entrar no presente e afirmou que:
“O tédio é um tecido cinzento e quente, forrado por dentro com seda das cores mais variadas e brilhantes. Nele nos enrolamos quando sonhamos.”
Esse é para todas as mulheres que lutam para sair da sombra e buscam o seu lugar ao sol.

Wednesday, January 03, 2007

O MUNDO EM PEDACINHOS

O mundo é um caquinho de vidro, diz o poeta. Caco é um pedaço partido de alguma coisa que já foi inteira, pode ser uma taça de cristal, um vaso antigo, ou vidraça alheia, ou metaforicamente as vidraças da nossa alma. Juntar os cacos dificilmente nos dará a possibilidade de recompor o todo em sua perfeição original. Mas, como todos os seres são formados de pequenas partículas asseverou o velho Demócrito de Abdera, como desprezar as partes ínfimas? Os cientistas nunca contestaram Demócrito, apesar dos séculos.
Nós, contemporâneos, como somos muito sabidos temos dificuldade de ver o todo como algo indivisível, indispensável. Para que olhar o todo se a parte nos basta. Chamamos pomposamente de meio ambiente e confundimos ambiente com parte da natureza, excluímos o humano porque os humanos arvoram-se, pretensamente, donos da natureza e ela está sob o nosso controle. Ou será que há muito tempo perdemos o controle de nós mesmos? Ou, ainda, fazemos vistas grossas para quem nos controla?
Vemos o mundo fragmentado na telinha da televisão ou do computador e, arrogantemente, enchemos o peito e alardeamos a nossa visão de mundo. Que mundo? O mundo que é vermelho na China? É sangrento nas ruas? Ou o mundinho virtual que a mídia graúda nos presenteou.
O mundo mudou dos gregos aos nossos dias. Mas, permaneceu desigual em alguns aspectos.

Tuesday, January 02, 2007

PAPAREIA SOMOS NÓS

RIO GRANDE, minha cidade, muita água, muito mar, tanto mar, a lagoa encontra-se com o mar. Muita areia, nos apelidaram de papareia.

NO CALOR DAS IDÉIAS 2

NO CALOR DAS IDÉIAS
DEZEMBRO/2003

Saturday, December 30, 2006

AS ÁGUAS QUE NOS MOVEM



As águas da lagoa movem-se lentamente para lá e para cá como se fosse um jogo sincronizado daqueles operados pelos mecanismos de um computador.
Sem o grego Tales na distante Mileto, no século VI a.C. não entenderíamos a imprescindível e vital importância das águas. Também, sem os seus compatriotas seria impossível discutir as idéias que nos movem e o indizível movimento do mundo.
Há os que passam sem ver, há os que vêem e não percebem, há os que sugam a água da lagoa para irrigar os arrozais exportáveis e permutá-los na mais alta cotação do mercado mundial.
Conta-se que Tales vivia distraído contemplando o céu apesar de ser um homem bom de cálculo já que calculou com precisão o eclipse que aconteceu séculos depois dele. Apesar disso, tropeçou numa pedra e foi motivo de risos pelos transeuntes. Os que riram dele viam as pedras e não as percebiam, pouco se importavam com as águas, com o movimento. Perceber é mais que ver. Perceber é aguçar os sentidos e percorrer o âmago da alma e os labirintos da razão.
Foi Tales quem disse que tudo era úmido e, nós humanos somos tal e quais as águas da lagoa. Mas, como transeuntes vêem e não percebem que o úmido se esgota a cada dia, que o ar que respiramos está quase estático com o efeito estufa. Afinal, o que é que nos temos ver com isso e o para que esse Tales foi buscar o arché.
Dedico aos percebem o mundo e cuidam dele.

O mar azul a nossa espera

O mar de Ponta Negra é lindo, apesar dos maltratos. Janeiro de 2005

Tuesday, December 26, 2006

POR ONDE ANDARÁS CATARINO

Catarino era aluno da turma 51, morava no “fundão” da vila, onde habitavam os desgarrados da sorte, os biscateiros, os que estavam à procura de emprego ou aqueles que cansaram de procurar.
Assim como hoje, nos idos da década de 70, emprego era uma mercadoria rara, cobiçada ao alcance de poucos. Era a época do “milagre brasileiro”, do “ame ou deixe-o”, “do país que vai pra frente”. Os jornais não falavam de greve, e nós, professores, só utilizávamos a sineta para anunciar o recreio.
Catarino era chamado assim por ter vindo do vizinho estado de Santa Catarina, seu nome verdadeiro era Luis, tinha um número no caderno de chamada e na ficha de matrícula. Os “números” e as “fichas” eram muitos úteis naquela época.
A diretora da escola, guardiã dos “números” e das “fichas” amava a hierarquia e o discurso das autoridades. Nas datas festivas discursava em cima de um banquinho, improvisando um palanque e de onde vislumbrava a maioria silenciosa de alunos e professores. Concluía sempre o discurso exaltando a Revolução de 64 que pôs fim, para sempre, ao clima de anarquia reinante no país. O segundo escalão era formado pela supervisora, além da predileção pelos “números” e pela “fichas”, supervisionava as atividades dos professores intervindo sempre que algo fugisse à normalidade. Tinha também a orientadora educacional, zelosa de seus afazeres entrevistava constantemente os alunos, respaldada pelas fichas, orientava sempre no caminho do patriotismo.
Tudo poderia ir muito bem, dentro da conformidade, se na turma 51, não existisse aquele migrante chamado Catarino, que perguntava muito, era curioso demais e gostava de discursar nos recreios. Leitor da Bíblia, sabia de cor o seu conteúdo, dava vida aos textos, aos salmos. Virou atração nos recreios. Subia no banquinho, não era o mesmo da diretora, naturalmente. No primeiro dia ninguém ligou, mas aos poucos ganhou notoriedade, virou atração, era efusivamente aplaudido pela massa. Sua fama de orador ultrapassou os muros da escola. Chamavam-no de “futuro vereador”.
A diretora não gostou. A primeira tentativa foi terminar com o recreio. Não pôde, foi advertida pelas autoridades. Logo ela, guardiã da ordem, não poderia contrariar a lei. O recreio estava dentro da lei. Chamou o segundo escalão, consultou as “fichas”, examinou os “números”, pediu o exemplar da Bíblia emprestado. Catarino passou por várias entrevistas, mas ninguém conseguiu dissuadi-lo dos discursos. Sem a Bíblia passou a declamar poesias: Castro Alves, Olavo Bilac, e o seu público aumentava a cada dia. Resolveram devolver a Bíblia. A religião era um dos esteios da Pátria!A Bíblia era melhor que a poesia, afinal a curiosidade de Catarino poderia chegar a um Ferreira Gullar ou a um Thiago de Mello, “poetas subversivos”.
Chegou o final do ano, avaliações, a entrega de boletim, a rematrícula. Consultadas as fichas e os números, não havia lugar para ele. Os professores que não concordassem com a decisão tinham a liberdade de sair da escola. Afinal a Revolução assegurava a liberdade de amar ou deixar. Deixei a escola com outros professores, naquele dezembro mormacento. Nunca mais vi Catarino. Dizem que conseguiu terminar o segundo grau em outra escola, mas que continuou fazendo discursos. Os que ficaram na escola dizem que a diretora voltou a discursar até o dia em que se aposentou. Não tinha o público de Catarino, nem palmas, nem vaias, mas tinha o palanque improvisado.
Neste mês do trabalho, entre lembranças das vivências, eu recordei de ti, não sei se conseguistes realizar o teu sonho de pastor, vereador ou locou. Mas conseguiste a proeza naquele difícil ano do final da década de 70, de balançar o palanque da diretora, o coração e s certezas de teus professores,
Catarino, onde andarás?
Primeiro lugar no Concurso Histórias de Trabalho, 1994. Foi a primeira vez que eu ganhei um concurso literário.

Sunday, December 17, 2006

LILI E O BAU DAS QUINQUILHARIAS

Ironicamente, o mundo de Lili tinha se resumido, nos últimos anos, à sagrada missão que lhe legaram seus antepassados. Esposa, mãe e dona de casa dedicada em tempo integral. Aos trinta anos, ainda solteira, resolveu deixar de lado as “loucuras” da juventude quando lhe apresentaram o melhor partido da cidade: alto, loiro, com promissora carreira no Banco do Brasil.
Não pensou muito, colocou no baú do esquecimento os discos dos Beatles, os livros da Simone e do Sartre, as fotos das viagens ao Rio de Janeiro, das passeatas contra guerra do Vietnã, juntamente com os projetos de independência econômica, todas quinquilharias supérfluas para uma moça direita e casadoira.
Imersa no papel que o destino lhe confiara, cumpriu passo a passo as regras e os ditames, entre eles viver à sombra de um grande homem. O tempo passou depressa demais, sem que Lili lembrasse do baú das quinquilharias. Afinal, não precisava de nada, o futuro garantido,invejável situação financeira, diferente das amigas que tinham que ir à luta pela sobrevivência e sustento da casa.
Quando o marido morreu, depois de longa enfermidade, ela também cumpriu os procedimentos de praxe: a missa de sétimo dia, as visitas de pêsames, o luto e tudo mais que cabe às viúvas honestas. Por recomendação médica, ela resolveu fazer uma pequena viagem e visitar os parentes na capital.
Afinal, fora ali que ela vivera boa parte da sua juventude. Durante a sua estada, os amigos e parentes proporcionaram passeios, jantares, encontros aprazíveis. Porém, na véspera da viagem de volta, Lili foi sozinha à Feira do Livro em busca de novos ares e de obras de auto-ajuda, dietas e artesanato. Estava um pouco tonta com os alaridos dos visitantes, quando vislumbrou entre os livreiros um semblante conhecido, apesar dos cabelos grisalhos. Não teve dúvida era José, personagem de um tórrido romance do passado, trancafiado na memória. Na banca de José não vendiam livros de dietas nem de auto-ajuda.O que fazer?
O tempo tinha dissipado muita coisa, mas não conseguiu lhe tirar a argúcia. Num momento de distração de José, ela copiou o telefone e e-mail da banca e foi para casa remexer o baú das quinquilharias.
Afinal, um recadinho à distância, pode reavivar antigos desejos.

O enredo foi sugerido na aula de conto pelo professor Jaime Cimenti.



Sunday, December 10, 2006

A rotina inexplicável

Nunca consegui uma explicação plausível para aquela viagem de fim de semana prolongado.Eu, que me vangloriava de ser diferente das demais pessoas curtindo o feriadão, numa corrida frenética para a praia.
Mas, a verdade é que eu me sentia o tipo “Maria vai com as outras”. A casa até que era aprazível, o problema estava dentro de mim pois não achava graça em nada. Então, sai para curtir o sol na esperança de aquecer minha alma inquieta. Caminhei vagarosamente pelas mesmas trilhas, tal como uma peregrina que cumpre resignada os passos dos seus mártires. Visitei os lugares de sempre, cumprimentei as mesmas pessoas e constatei o óbvio: não há nada desconhecido debaixo do sol.
Escondida atrás da máscara de durona, estava ali uma mulher como as outras, uma das muitas Marias que cumprem a rotina onde quer que estejam, na praia, na cidade, no campo, com as suas dores e amores. Foi assim que as minhas tormentas internas identificaram-se com os trovões e os relâmpagos e a chuva intensa que veio logo após. Restava-me apenas esperar que a chuva amainasse para retornar para casa e retomar a rotina do feriadão chuvoso.
Como tudo passa, a chuva passou, retornei ao caminho da casa. A chuva deixou as marcas de sempre. Contornei os lamaçais e cheguei ilesa, felizmente. Ao colocar a chave na porta percebi algo diferente, para além da rotina. Havia alguém estranho dentro de casa! Pensei em recuar, chamar a polícia, pedir socorro. Ainda bem que não tomei nenhuma das providências. Estava ali o inusitado, o vinha alterar definitivamente a malfadada rotina. Não eram os larápios contumazes que rondam as casas desertas. E sim um ex-amor que havia esquecido de devolver a chave da porta da casa. Um ex-amor tão delicado a gente nunca esquece.
E, assim, até o próximo domingo a rotina tinha ido para o ralo da pia.
Observação: o enredo foi sugerido na Oficina de Conto do Jaime Cimenti.